Paixão pelo café atravessa gerações
A história de uma família que transformou conhecimento, trabalho e paixão em um dos cafés mais premiados de Rondônia foi apresentada em mais uma entrevista do RuralCast, podcast do Grupo Amazun, durante a 2ª AGROTEC, em Porto Velho.
Entrevistado pelo apresentador Lenilson Guedes, o produtor José Norberto Fuzinato falou sobre a trajetória do Café Fuzinato, produzido artesanalmente em Rolim de Moura, na região da Zona da Mata.
O empreendimento é conduzido pela própria família, que participa do cultivo, da colheita, do beneficiamento e da comercialização.
“É uma produção familiar de verdade. A família Fuzinato produz e comercializa esse café, sempre voltada à qualidade e aos cafés especiais”, afirmou José Norberto.
Descendente de italianos e natural do Paraná, o produtor mantém uma relação com a cafeicultura desde a infância. Ao chegar a Rondônia, acompanhou as mudanças que transformaram uma produção baseada em baixa tecnologia em uma atividade cada vez mais profissional e reconhecida.
“Desde pequeno eu mexia com café. Quando viemos para Rondônia, trouxemos variedades que conhecíamos, mas naquele tempo não existia a tecnologia que temos hoje”, relembrou.
Café Fuzinato representa Rolim de Moura
Durante a entrevista, José Norberto ressaltou o orgulho de levar o nome do município e de Rondônia para diferentes mercados e concursos.
“Para nós é uma honra representar Rolim de Moura e o estado de Rondônia em nível nacional”, declarou.
A presença na AGROTEC também foi considerada uma oportunidade para apresentar o produto a novos consumidores, ampliar contatos comerciais e demonstrar o potencial da agricultura familiar.
“É muito gratificante participar desta feira, principalmente para quem produz qualidade”, acrescentou.
A exposição em eventos fortalece a marca e ajuda o público a compreender por que um café especial possui características e valores diferentes de um produto convencional.
Amor e dedicação são os primeiros ingredientes
Questionado sobre o que levou o café da família a se destacar, José Norberto apontou a dedicação como o principal fator.
“O que faz o café vencer é o gosto pelo trabalho, a dedicação e o amor. Tudo o que fazemos é com amor”, afirmou.
O produtor relembrou um conselho recebido do pai e que continua orientando o trabalho da família.
“Meu pai sempre dizia que quem tem amor pelo que faz vai longe. É preciso seguir adiante, produzir e fazer as coisas bem-feitas”, contou.
Na propriedade, a qualidade não é tratada como uma etapa isolada. Ela começa na implantação da lavoura e continua até o momento em que o café é embalado e comercializado.
10º Concafé consagrou a qualidade do produto
O trabalho da família ganhou projeção com a conquista do 10º Concurso de Qualidade e Sustentabilidade do Café de Rondônia — Concafé, realizado em 2025.
O lote do Café Fuzinato alcançou 90,38 pontos e conquistou o primeiro lugar na categoria geral e na Regional Zona da Mata. A premiação oficial foi registrada em nome da produtora Débora Cristina Buziquia Fuzinato, integrante da família e do empreendimento.
“Fomos campeões em 2025 e campeões da Zona da Mata. Foi uma grande honra representar o nosso estado”, comemorou José Norberto.
Além do reconhecimento, a conquista rendeu à família um trator avaliado em aproximadamente R$ 240 mil e aumentou a procura pelo café.
“Ganhamos um trator e surgiram várias oportunidades. As vendas aumentaram muito, e tudo isso agregou valor ao nosso trabalho”, relatou.
O resultado reforça a força do café canéfora produzido em Rondônia e coloca Rolim de Moura entre as referências estaduais em qualidade.
Entre os melhores cafés do Brasil
O Café Fuzinato também participou do Coffee of the Year Brasil 2025, realizado em Belo Horizonte, e ficou entre os 30 melhores cafés do país, conforme divulgado pela própria marca.
A classificação ampliou a visibilidade nacional do produto e aproximou a família de compradores e consumidores interessados em cafés especiais.
“Participamos de competições e ficamos entre os 30 melhores do Brasil. Isso levou o conhecimento do Café Fuzinato para outros lugares”, destacou.
A família também começou a apresentar o produto fora do país. José Norberto contou que um de seus filhos vive na Irlanda e levou unidades do café para divulgação e comercialização.
“Nosso filho mora na Irlanda e já está levando o café para lá. Aos poucos, o produto está chegando a outros mercados”, afirmou.
Busca pela qualidade começou com assistência técnica
A conquista não aconteceu de maneira imediata. José Norberto contou que a família começou a transformar o sistema produtivo depois de buscar conhecimento em instituições como Emater, Embrapa e Senar.
“A Emater apareceu em nossa propriedade e começou a prestar assistência. Depois, fui procurando informações na Embrapa, no Senar e onde mais fosse possível”, relatou.
O acompanhamento técnico despertou o interesse pela produção de cafés de maior qualidade. A partir de 2021, a família intensificou o trabalho de seleção de materiais genéticos, organização das lavouras e aperfeiçoamento do pós-colheita.
“Em 2021, o técnico Marcelo foi à nossa propriedade e disse: ‘O café é bom, vamos fazer qualidade’. Como sou apaixonado, respondi: ‘Vamos para cima’”, relembrou.
Naquele mesmo período, a família enviou uma amostra para avaliação e ficou entre os 40 cafés selecionados no estado. O resultado mostrou que havia potencial, mas também indicou a necessidade de continuar melhorando.
Clones foram plantados separadamente
Uma das decisões mais importantes foi organizar a lavoura por materiais genéticos. A família plantou clones em linhas separadas, permitindo colher e processar cada um individualmente.
“Plantamos cada rua com o seu clone. Assim, conseguimos colher frutos totalmente maduros e saber exatamente qual clone estamos trabalhando”, explicou.
Quando diferentes clones são misturados, frutos com ciclos distintos de maturação podem ser colhidos juntos. Isso dificulta a padronização e pode interferir no perfil sensorial.
Entre os materiais testados na propriedade, José Norberto citou os clones 25, R22, 010 e outros selecionados para novas fermentações.
O lote premiado foi produzido com o clone 25, que apresentou resultado sensorial expressivo.
“Fomos campeões com o clone 25, mas já estamos fazendo fermentações com outros clones. Continuamos pesquisando e buscando novos resultados”, afirmou.
Solo, adubação e irrigação influenciam a bebida
A qualidade começa muito antes da colheita. Para José Norberto, o preparo do solo, a adubação, a irrigação e o controle dos problemas fitossanitários influenciam diretamente a formação dos frutos.
“Começa no plantio, com a terra bem trabalhada e a adubação na cova. A irrigação e a fertilidade precisam ser acompanhadas durante todo o desenvolvimento”, explicou.
O produtor afirmou que busca reduzir ao máximo o uso de defensivos, realizando intervenções somente quando necessárias e no momento adequado.
O cuidado é ainda maior no período de floração e enchimento dos grãos, etapas decisivas para a produtividade e para a qualidade final.
“Se aparecer cochonilha, broca ou algum problema depois da florada, é preciso fazer o controle na hora certa para não prejudicar a flor nem o grão”, ressaltou.
A irrigação também permite melhorar a regularidade da lavoura em períodos de calor intenso e deficiência hídrica.
Clima de Rondônia impõe desafios
O calor elevado foi apontado como um dos desafios enfrentados pelos produtores. Apesar disso, as variedades de café canéfora possuem características que favorecem a adaptação às condições amazônicas.
“A dificuldade de Rondônia é o calor, mas o robusta possui capacidade de suportar essas temperaturas”, observou.
Ao longo dos anos, produtores, técnicos e pesquisadores selecionaram materiais adaptados ao clima e aos sistemas produtivos locais. Esse trabalho ajudou a consolidar os chamados Robustas Amazônicos.
Os cafés canéforas de Rondônia vêm alcançando espaço em concursos nacionais e internacionais graças à combinação de genética, ambiente, manejo e processos de pós-colheita.
Frutos maduros são essenciais
O momento da colheita é decisivo para a qualidade. Na propriedade da família Fuzinato, os lotes destinados aos cafés especiais são colhidos quando apresentam alta porcentagem de frutos maduros.
“Para fazer qualidade, deixamos o café amadurecer. O especial precisa ter mais de 90% dos frutos maduros”, explicou José Norberto.
Segundo o produtor, a colheita voltada à qualidade começa mais tarde do que em muitas lavouras convencionais, geralmente a partir de junho.
“Quem faz qualidade começa a colher de junho para frente. Nós esperamos a maturação”, afirmou.
A espera permite concentrar a colheita nos frutos que alcançaram maior desenvolvimento. Antecipar excessivamente o processo aumenta a presença de grãos verdes, que podem provocar adstringência e defeitos na bebida.
Colheita manual e mecanizada
A propriedade utiliza diferentes métodos de colheita, conforme o lote e a finalidade do produto.
Os cafés fermentados e voltados aos concursos recebem seleção mais rigorosa e participação manual. Já os lotes naturais e tradicionais podem contar com equipamentos de colheita e recolhimento.
“O café fermentado é trabalhado manualmente. Nos cafés naturais e tradicionais, temos máquinas para colher e recolher, mas todos são lavados, escolhidos e separados”, detalhou.
Independentemente do método, a família procura retirar frutos inadequados e separar os chamados “boias”, que apresentam menor densidade e podem indicar problemas de formação.
A seleção reduz defeitos e aumenta a uniformidade do lote.
Fermentação controlada dura cerca de 15 dias
O café que conquistou a premiação passou por um processo de fermentação prolongada e controlada.
Depois da colheita e seleção, os frutos maduros são colocados em recipientes apropriados. O processo dura aproximadamente 15 dias, até a redução da atividade fermentativa.
“Colocamos somente os frutos maduros nos recipientes e deixamos fermentar por cerca de 15 dias, até o processo parar”, explicou.
A fermentação pode desenvolver novos aromas, sabores e níveis de complexidade. Entretanto, exige conhecimento, higiene e acompanhamento, pois falhas podem comprometer todo o lote.
Após essa etapa, os grãos passam por uma nova seleção antes da secagem.
Secagem utiliza apenas ventilação
O método de secagem foi um dos diferenciais destacados por José Norberto. O café é distribuído em camadas finas dentro de um secador estático e recebe ventilação, sem aplicação direta de fogo.
“Colocamos o café em camadas finas no secador estático e usamos somente ventilação. Não colocamos fogo”, revelou.
O objetivo é retirar a umidade de maneira lenta e uniforme, preservando as características formadas durante a fermentação.
“Existem vários métodos, como terreiro suspenso ou secador com fogo, mas qualquer diferença pode interferir na qualidade. Fomos campeões com esse nosso sistema”, acrescentou.
A secagem inadequada pode causar fermentações indesejadas, mofo, perda de aromas ou falta de uniformidade.
Torra revela diferentes perfis
O Café Fuzinato é comercializado em diferentes versões. A torra escura atende consumidores que preferem um café mais intenso e tradicional. A torra média procura preservar e revelar melhor as características sensoriais dos grãos.
“A torra escura lembra o café tradicional. Já a torra média busca o sensorial e mostra melhor aquilo que o grão possui”, explicou.
O café fermentado premiado é produzido em quantidade limitada e destinado principalmente a consumidores interessados em degustação e experiências sensoriais.
“O fermentado é um café de degustação, o mesmo perfil que levamos para os concursos”, destacou.
Os preços refletem as diferenças de processo, volume e seleção. Na época da entrevista, José Norberto informou valores aproximados de R$ 80 por quilo para a torra escura, R$ 100 para a torra média e R$ 160 para o lote fermentado campeão.
Mais de 500 famílias investem em cafés especiais
José Norberto ressaltou que o crescimento da cafeicultura de qualidade não se limita à família Fuzinato.
Segundo ele, centenas de famílias rondonienses já trabalham com cafés especiais e contribuem para fortalecer a reputação do estado.
“Temos mais de 500 famílias produzindo café especial. Isso já não está restrito a Rondônia; estamos conquistando espaço em Belo Horizonte e até fora do país”, afirmou.
A participação coletiva cria uma nova imagem para o café canéfora. Durante muito tempo, a espécie foi associada apenas a produtos convencionais. Os resultados recentes demonstram que ela também pode apresentar elevada qualidade e complexidade sensorial.
O 10º Concafé reforçou essa evolução ao reunir lotes de diferentes regiões e reconhecer cafés com pontuações superiores a 90 pontos.
Premiação ampliou o mercado
Depois das conquistas, o Café Fuzinato passou a receber maior procura. A família avançou na regularização, ampliou os contatos comerciais e começou a inserir o produto em estabelecimentos de Rolim de Moura.
“Agora estamos no mercado, temos documentação e condições para ampliar. A premiação aumentou muito as oportunidades”, declarou.
A comercialização é realizada por encomendas e em pontos parceiros. A família também analisa a entrada em mercados, respeitando a quantidade que consegue produzir sem comprometer a qualidade.
Para José Norberto, crescer de forma responsável é mais importante do que aumentar rapidamente o volume.
“Podemos ter fama, mas precisamos manter os pés no chão e fazer tudo bem-feito”, ponderou.
Meta é crescer mantendo o padrão
O lote campeão recebeu quase 91 pontos, resultado que coloca o produto entre os cafés especiais de alta qualidade.
“Nosso café chegou perto de 91 pontos. Continuamos buscando melhorar e já enviamos novos lotes para concursos”, contou.
O produtor reconhece que outras famílias também podem alcançar resultados superiores e considera essa competitividade positiva para a cafeicultura estadual.
“Pode ser que alguém faça melhor do que nós, assim como fizemos melhor em determinado momento. O importante é continuar buscando o melhor que pudermos”, afirmou.
Assista à entrevista completa no canal Olá Rondônia:
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