A organização coletiva tem ajudado pequenos produtores rurais de Cacoal a reduzir despesas, ampliar a produção e acessar equipamentos que seriam difíceis de adquirir individualmente. Esse trabalho foi detalhado pelo produtor rural Fredson Dellarmelino, presidente da Associação ASTRA, durante entrevista ao RuralCast, apresentado por Adalto Costa.
Morador de Cacoal desde 1980, Fredson vive até hoje na mesma propriedade adquirida por seu pai. Sua ligação com o associativismo começou há vários anos. Desde a fundação da ASTRA, em 2001, ele participou de diferentes funções na diretoria e no conselho fiscal, acumulando experiência até assumir a presidência.
Atualmente, a associação possui 76 membros ativos. Desse total, 66 trabalham com café, enquanto dez associados desenvolvem outras atividades rurais. A cafeicultura é a principal fonte de sustentação econômica da entidade e foi responsável pela ampliação de sua estrutura.
“Se não fosse o café, a associação não teria a estrutura que tem hoje. Tudo o que mantém a entidade vem da renda das máquinas, dos secadores e dos serviços realizados durante a safra”, explicou Fredson.
A ASTRA possui três secadores de café, sendo dois com capacidade de 15 mil litros e outro de menor porte, além de uma máquina de beneficiamento com capacidade informada de até 800 arrobas. A estrutura inclui caminhão, trator traçado, grades agrícolas, niveladora, implementos e uma carretinha adaptada para o transporte de animais em situações emergenciais.
Os equipamentos são disponibilizados aos associados por valores inferiores aos cobrados por prestadores particulares. No caso do trator, o produtor paga apenas pelo período efetivamente trabalhado dentro da propriedade, sem cobrança pelo deslocamento.
“Não importa se o associado precisa de dez minutos ou dez horas de serviço. O trator vai até a propriedade e ele paga somente pelo tempo em que o equipamento estiver trabalhando”, afirmou.
O caminhão também é utilizado como instrumento de incentivo. Quando um associado precisa transportar mudas de café, fertilizantes ou outros materiais, a entidade disponibiliza o veículo e cobra somente a diária do motorista.
“Se o produtor buscar mudas de café em qualquer parte do município, ele paga apenas o motorista. Não importa se são 10 mil ou 100 mil mudas. O caminhão vai e não cobramos o frete”, destacou o presidente.
Segundo Fredson, esses serviços ajudam a diminuir os custos para implantação e manutenção das lavouras. A possibilidade de utilizar máquinas no momento necessário, por preço mais acessível e, em alguns casos, com prazo para pagamento, também favorece a continuidade dos pequenos agricultores na atividade.
Participação e transparência
A participação dos associados é considerada uma das bases para a estabilidade da ASTRA. Conforme Fredson, aproximadamente 90% dos membros comparecem às reuniões, que discutem as demandas das propriedades e os investimentos da organização.
A diretoria se reúne mensalmente, mas as decisões de maior importância são encaminhadas à assembleia. O presidente ressaltou que não toma decisões individualmente e que a administração deve representar a vontade coletiva.
“Eu sou o presidente, mas não decido sozinho. Temos secretário, tesoureiro, diretoria e conselho fiscal. As propostas são discutidas e levadas para a assembleia. O que a maioria decidir é o que vale”, declarou.
Para Fredson, a transparência ajuda a explicar a confiança mantida entre os membros e a direção da entidade. A participação nas reuniões também permite que o produtor acompanhe os recursos, os serviços prestados e as prioridades estabelecidas pelo conjunto dos associados.
“Eu não considero que a associação seja de uma pessoa. A associação é um conjunto. O único prazer que temos é ouvir alguém dizer que ela está indo bem, porque isso demonstra que o trabalho está atendendo aos sócios”, acrescentou.
A estrutura administrativa conta com seis integrantes na diretoria e outros seis no conselho fiscal, além da participação dos associados nas assembleias. Na visão do presidente, esse modelo impede a concentração de decisões e fortalece o sentimento de pertencimento.
Compra coletiva de insumos
Apesar da estrutura consolidada, Fredson reconheceu que a ASTRA ainda possui desafios. Um dos principais é avançar na compra coletiva de fertilizantes, sal mineral, proteínas e outros produtos utilizados nas propriedades.
A aquisição em grande quantidade pode garantir descontos significativos, mas exige organização, planejamento financeiro e participação dos agricultores. A associação teria de realizar a compra em seu próprio CNPJ e posteriormente distribuir os produtos.
“Não adianta vender bem e comprar mal. Quando o produtor compra adubo em grande quantidade, consegue uma diferença muito boa no preço. Precisamos juntar os associados e estruturar essa operação”, avaliou.
Segundo o presidente, a venda coletiva da produção é mais complexa porque cada agricultor pode apresentar necessidades, volumes e períodos diferentes para comercialização. A compra coletiva, por outro lado, aparece como uma alternativa mais viável para reduzir os custos de produção.
A medida poderia beneficiar não apenas os cafeicultores, mas também associados ligados à pecuária, avicultura, suinocultura e outras atividades.
Apoio público e transporte de calcário
Fredson também destacou que, mesmo organizada, a associação enfrenta dificuldades para conseguir apoio em demandas que dependem do poder público. Um dos exemplos apresentados foi o transporte de calcário até as propriedades.
De acordo com ele, 18 produtores compraram o produto e solicitaram apoio para realizar o transporte. Parte deles conseguiu pagar o frete particular, mas outros ainda não receberam o material devido ao custo do serviço.
“Nós tínhamos 18 produtores com calcário comprado e precisando do transporte. Quem tinha condição pagou o frete; quem não tinha, ainda não conseguiu levar o produto para a propriedade”, relatou.
Fredson ressaltou que o agricultor não busca necessariamente receber produtos de graça, mas precisa de condições para manter o solo corrigido e garantir produtividade.
“O produtor não precisa ganhar tudo gratuitamente. Ele precisa de apoio. O calcário custa um valor e, muitas vezes, o frete custa ainda mais. Para produzir, a terra precisa estar corrigida e organizada”, defendeu.
Associações precisam acompanhar mudanças
Ao analisar o futuro do associativismo rural, Fredson afirmou que as entidades precisam acompanhar as transformações tecnológicas e as novas necessidades do campo. Para ele, uma associação só preserva a participação quando oferece benefícios concretos aos seus membros.
“A associação precisa ser viável para o produtor. Se o associado percebe que ela não o ajuda em nada, não encontra motivo para continuar. A entidade precisa buscar novidades, serviços e melhorias”, disse.
O dirigente também mencionou a dificuldade enfrentada por algumas associações para renovar suas diretorias. Na avaliação dele, o modelo de gestão precisa evoluir de acordo com as mudanças de cada geração.
“Nossos pais tinham uma ideia de trabalho, nós temos outra e nossos filhos terão outra. A evolução está acontecendo e as associações precisam acompanhar. Se não acompanharem a tecnologia, não vão progredir”, pontuou.
Mesmo sem ter participado de uma formação específica para dirigentes, Fredson afirmou que aprendeu a administrar a associação por meio da experiência diária, do diálogo com os associados e da busca por orientação quando surgem questões técnicas ou legais.
Para ele, boas experiências precisam ser divulgadas para estimular outras organizações. “O caminho que trilhamos até aqui deu certo, tanto pessoalmente quanto na associação. Talvez alguém ainda não tenha alcançado o resultado por falta de uma experiência ou de algum ajuste. Por isso é importante compartilhar”, concluiu.
A entrevista completa com Fredson Dellarmelino está disponível no canal Olá Rondônia, no YouTube.
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